"Sexo sem amor é amizade"

"Sexo sem amor é amizade" - cantou Rita Lee, será?

Então como um mantra internalizei que o sexo é um dever no relacionamento, se não este seria "desclassificado" a um patamar social abaixo. Não posso passar mais de um mês sem transar senão meu marido se torna somente um amigo? E assim vamos nos afastando lentamente até chegar em um ponto onde um divorcio explode resultante de anos de tensão sexual mal reprimida devido ao ajuste de nomenclatura: marido para amigo. 

Percebe o quão problemático é supervalorizar o sexo ainda mais em uma sociedade tão supérflua que capitaliza o corpo e beleza sensual desta forma a mão invisível cria um padrão social e estipula discretamente a frequência ideal para um casal ser considerado um casal bem sucedido. Ainda nesse contexto, este mesmo capital gera bilhões em lucros anuais nas custas desse pobre casal que mesmo sem vontade, após uma semana cheia, crises de ansiedade, ainda assim precisam transar para provar para alguém (quem?) que eles não são só amigos. Os nichos que capitalizam nessa dinâmica são vários, desde produtos eróticos, lingeries, motéis, laminas de barbear, depilação a laser, entre outros produtos que podem ser consumidos na dança para a copula.

A grande questão é: porque nos deixamos chegar a esse ponto de supervalorizar o sexo e o colocar como juiz do relacionamento, como cantou Rita Lee. Quem irá validar o relacionamento é o próprio casal dentro da sua rotina, o que é considerado um relacionamento para eles: um banho divertido juntos, cozinhar em sinergia, depois comer até sentir o prazer da barriga cheia e deitar de conchinha para descansar após o almoço, acordar e assistir um filme que você não quer, mas faz isso para deixar seu parceiro mais feliz, e depois, se houver energia e desejo de ambos para transar, vai ser uma delicia. Mas se um -ou os dois- estiver cansado e só pedir um abraço para deitar, isso sim é prazeroso, isso também dá tesão: a liberdade de poder optar por não transar pois está cansado/estressado, e sem sentir a culpa imposta pela mão imaginaria. Toda essa dinâmica para mim é superior ao sexo.

Não é que o sexo seja ruim ou supervalorizado, o sexo é maravilhoso quando feito com vontade espontânea e natural, e sabemos que isso não é possível seguindo uma agenda mensal. "Ah, mas já faz duas semanas que não fazemos!" OK, então o outro mesmo sem estar com vontade vai se forçar a fazer algo apenas para cumprir tabela, e, provavelmente será uma transa morna e rápida. O quão o sexo é bom nesse cenário? Não seria mais excitante ter o poder de liberdade para não viver escravo dessa pressão?

O sexo espontâneo pode levar dias, semanas, quinzenas ou meses. Pode ser que alguem fique um longo periodo cansado, ansioso, estressado, e só queira descansar, e tá tudo bem. Vocês não deixam de ter um amor por isso, a falta de sexo não vai lhes reduzir a amigos.

O problema dessa corelação é que não está propriamente definido o que é o amor, mas definitivamente não é a falta de sexo. Amor é o companheirismo e construçao dentro do relacionamento, é parecido com uma amizade sim, mas são amigos com maior intimidade e que compartilham do mesmos sonhos e valores buscando atingir seus objetivos juntos. A falta de sexo não invalida isso.

O sexo do domingo de manhã relaxado, após horas de sono necessária, com a janela iluminando o quarto do ceu dourado. O silencio e calmaria, começa os afagos, então as caricias percorrem as costelas, contornam o quadril e se infiltra entre as coxas, dando inicio a uma inesperada onda de prazer, que logo é retribuida e assim temos o sexo espontaneo: quando se há vontade de ter, não pressão!

E esse é o melhor, sexo de bom dia! Mesmo que leve semanas, nada invalida o amor.


 

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