Ervas daninhas

Dizem que a magoa só prejudica aquele que o sente, e a cada ano que passa me sinto menos sábia, pois continuo cultivando minhas magoas nos canteiros obscuros do meu subconsciente. Mesmo quando consigo -no auge da mania- encobrir as mazelas da vida e pintar um paraíso emocional, as feridas continuam expurgando o pus amarelado e mal cicatrizado, pois a cada pá de cal que encubo emulando felicidade, apodrece o jardim de magoas.

Como ervas daninhas, é impossível localizar. Não sei quando vão surgir e o que vai engatilhar, mas quando vejo, os velhos sentimentos estão me dominando e escurecendo minha visão; me sinto fraca, depressiva, estagnada. Mas o pior: insegura.

Insegura com minhas escolhas, das minhas decisões e caminhos que percorri. Acredito que parte seja minha dificuldade em aceitar o ser humano falho que sou, porém, este seria um ciclo vicioso, uma vez que a necessidade de ser "a melhor" é o fruto da rejeição, portanto, a rejeição veio antes desta necessidade?

Possivelmente, desde meu progenitor recusando meu sexo no ventre da minha mãe – que maldição ter menina!- ou a violência física e emocional praticada durante meu crescimento. Cresci vendo a traição ser normalizada, assim como agressões, sejam também físicas ou verbais, o ciúme e possessão como forma de amor. Mas não posso julgar, pois eram apenas pais jovens em sua pura imaturidade. As feridas que eu carrego até minha maturidade, eu que lide.

O problema é que não sei lidar, só encobrir. Antes, em antigos relacionamentos, segui os passos do meu modelo infantil e projetei minhas inseguranças nos meus parceiros, que em sua vasta filhadaputice me agrediram física, sexual e principalmente emocionalmente.

A primeira agressão fui empurrada no banho, engraçado, lembrei do dia que meus pais quebraram o boxe do banheiro numa briga, meu pai foi parar no hospital. Terminei imediatamente, ainda era empoderada.

A segunda agressão, ele socou a parede do lado do meu rosto; eu sabia que a mira era minha face, apenas questão de tempo. Fizemos sexo de reconciliação (eu acreditava ser o melhor -ou ele me fez acreditar-) e ele me machucou a ponto de eu sentir a pior cólica da minha vida, me contorcia no chão do banheiro sentindo seu ódio escorrendo pelas minhas pernas. Eu acreditava que ele só era muito passional e eu merecia.

A terceira agressão foi o tratamento de silencio (desta vez não tinha nada físico -nem sexo-, apenas emocional), uma pessoa cheia de traumas se relacionando com outra problemática, só poderia dar o que deu: merda. Ele me jurou estabilidade e segurança financeira, eu sabia que não havia amor mas me contentava com isso, pois era tudo que não tive na infância. Então ele me largou no altar.

Promessa quebradas, expectativas deturpadas, abuso e projeção, dediquei meus melhores anos a relacionamentos que pudessem me proporcionar o amor que não tive na infância. Meus melhores anos, o auge do colágeno, a pele firme e seios duros, quadril delineado balançando no ritmo frenético da libido juvenil. Tudo por ralo abaixo.

Tantos anos se passaram, comi toda a dor (nem sou eu que disso, foi a psicologia!), engordei para ser vista -ou confirmar a rejeição, talvez-. A idade chegou, meu corpo não é mais o mesmo, pela primeira vez encaro a queda do colágeno e os poros dilatados, a olheira cada vez mais profunda e nem o zolpidem ajuda. A cintura já não tem a mesma mobilidade libidinosa e sinto que perdi meu auge, cada vez me afogando mais no capitalismo em suas ondas cheias de dividas, golpes, financiamentos e juros, já não sou a mesma artista/escritora de antes, dissipou-se as inspirações. 

Então, no meio desse caos, conheci um homem maravilhoso.

Opa.

Cuidado.

Fiz questão de despi-lo das minhas projeções e idealizações. Foi então que amei como nunca.

Pois hoje vejo que nunca amei, só me apaixonei.

Diferente dos outros, ele não tem segurança e estabilidade financeira para me proporcionar, não tem uma libido ardilosa para me deslumbrar, não faz promessas levianas para me emocionar.

Tudo que ele tem é seu coração, tão puro e grandioso, recheado de lealdade e bondade. Sua mente tão inteligente e ao mesmo tempo humildade, tão empático e sincero. Ele me oferece seu tempo -artigo tão precioso atualmente- e faz questão de passar cada minuto que pode ao meu lado.

E eu estou com tanto medo.

Só queria arrancar essas ervas daninhas e ser feliz.

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